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The ghost in the machine

Ricardo Anderáos

Minha mãe tem 87 anos de idade e nunca colocou a mão em um computador pessoal. O mais perto que ela chegou de um PC foi quando abri meu laptop em sua casa para mostrar a ela fotos das crianças, feitas com minha câmera digital. Creio que meu pai, que morreu em 1992 e teria 90 anos se estivesse vivo, só viu essas máquinas em fotos.

Abaixo deles na pirâmide etária da família, todo mundo na família usa e abusa dos PCs. Claro que os mais velhos apanham, os jovens se viram e as crianças arrasam quando o assunto é computador. Esse é o cenário em qualquer família de classe média, em qualquer ponto do planeta. O PC caminha para tornar-se tão onipresente quanto a TV. E aumenta a cada dia o tempo em que a molecada fica agarrada ao mouse, em detrimento do controle remoto da televisão.

Parece incrível que o primeiro PC tenha sido lançado há apenas 25 anos. Dá para imaginar nossa vida sem computadores? A longo prazo, aposto que o impacto dos PCs será mais profundo e transformador do que o do automóvel ou da TV. Sem contar que, combinados com telefones celulares e encolhidos até caberem na palma da mão, vão se transformar no aparelhinho mais útil e mais vendido do século 21. Quer apostar?

Mas a massificação dos PCs nos anos 90 despertou também a sensação de que estávamos nos tornando escravos do monopólio da Microsoft e seu sistema operacional Windows, o programa que faz mais de 90% dos computadores do planeta funcionarem. Processos na Justiça questionaram esse monopólio. E o movimento do software livre se tornou um campo para os novos ativistas se mobilizarem contra Bill Gates, o homem mais rico do mundo, visto por muitos como o fantasma que vive dentro de nossas queridas máquinas.

Dada a enorme penetração dos PCs em nosso cotidiano, essa questão não é de interesse apenas para quem lê a seção de economia dos jornais ou gosta de programar computadores. Ela interessa a todo mundo.

A primeira real ameaça ao monopólio de Mr. Gates é o Google. Seu mecanismo de busca de páginas na web é sem dúvida a coisa mais útil inventada na rede desde o correio eletrônico.

Muita gente acha que ele vai quebrar o monopólio da Microsoft com programas que rodam totalmente pela internet. De repente, parece que liberdade é abrir mão de nosso computador pessoal, deixar todos os nossos arquivos nos servidores do Google e acessá-los no cibercafé da esquina. Mas é aí que mora o perigo.

Quem acompanha a história da computação pessoal desde os primórdios, nos anos 70, sabe que os micros foram inventados por jovens ripongas revoltados contra o monopólio dos grandes computadores IBM, tão bem satirizado em filmes como 2001 Uma Odisséia no Espaço e Colossus. No começo de sua carreira, Mr. Gates era um revolucionário.

O monopólio da Microsoft é inquestionável e preocupante. Mas não vamos jogar a criança fora junto com a água do banho: se você se incomoda com o Windows, arregace as manguinhas e comece a quebrar a cabeça para instalar o Linux em seu PC.

Claro que é útil consultar o e-mail em qualquer computador e ter um lugar para guardar arquivos gigantes no GMail. Mas eu nunca vou abrir mão do meu computador pessoal. No século 21, esse ainda será importante front na luta por nossos direitos civis.

Alienar nossos arquivos e toda nossa computação a um servidor na internet é uma volta aos tempos dos mainframes, os gigantescos computadores centrais.

O verdadeiro fantasma na máquina não é Mr. Gates, e sim Hal, o computador-vilão do inesquecível 2001 de Stanley Kubrick.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo