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Stuck in a moment

Ricardo Anderáos

Terça-feira passada, quando saía de casa para ver o show do U2, vi um isqueiro em cima da mesa e resolvi levá-lo. Eu parei de fumar há anos. Mas pensei em usar o bichinho no estádio para acender junto com a multidão quando as luzes do palco se apagassem, na hora de uma balada mais lenta ou no final da apresentação, para pedir o bis.

Há anos eu não ia a um show desses. E, semana passada, tirei a barriga da miséria: fui ao Rio ver os Stones e ao Morumbi para curtir o U2. Mas em Copacabana, com a luz da rua, dos prédios e dos refletores, não rolou essa coisa de milhares de isqueiros piscando na escuridão.

Essa é uma praxe acadêmica para nós, velhos fãs do rock-n’-roll. Uma maneira de participar do show e se integrar na multidão. Como as “olas” das torcidas nos jogos de futebol. Assim, enfiei o isqueiro no bolso e me mandei para o Morumbi.

Macaco velho, fui para o estádio de moto e cheguei em cima da hora do show. Não enfrentei trânsito nem filas. Entrei em campo junto com o U2 . O show estava um arraso.

Lá pelas tantas, as luzes do palco e dos refletores finalmente se apagaram. Eu já ia metendo a mão no bolso para pegar meu isqueiro quando a multidão, a pedido do Bono Vox, começou a acender e piscar sabe o quê? Os celulares!

Resmunguei intimamente com mais essa novidade eletrônica. Mas tive de reconhecer que o efeito visual foi arrasador. Aquelas dezenas de milhares de luzinhas azuladas, balançando na escuridão, davam um ar mágico ao estádio. Essa moda chegou para ficar.

Resolvi entrar no fluxo, já que esse é o barato de participar dessas grandes aglomerações. Peguei meu celular, liguei e comecei a balançar o aparelho em sincronia com a multidão.

Foi inevitável me sentir meio sucateado. Depois de aposentar o LP, o cassete e o CD, chegou a hora de aposentar o isqueiro em show de rock. Logo logo será a minha vez. Malditos celulares, pensava eu.

Foi quando Bono puxou para a pista a fã gaúcha Desirê Thomé Pedroso, repetindo o que tinha feito na noite anterior com a fluminense Katilce Miranda. No dia seguinte, vários jornais e blogs comentavam a presença de espírito da Desirê, que falou seu nome para o Bono e acabou ganhando uma versão da música Desire, que nem estava no programa do show, só para ela.

Mas, na minha opinião, a Desirê deu bobeira. E acho que o Bono pensou a mesma coisa. Afinal a moça subiu lá, ficou abraçada com o ídolo, ganhou uma música em sua homenagem, mas sabe o que ficou tentando fazer? Tirar uma foto dela e do Bono com seu celular!

Enquanto via a Desirê lá em cima do palco, mais preocupada com seu telefone do que com o Bono, lembrei daqueles turistas que a gente vê em diversos cantos do planeta, que parecem mais interessados em tirar uma foto do que em curtir sua presença num local.

Bono resolveu ajudar, e até posou para a foto. Mas mesmo depois disso, Desirê continuou teimando em tirar outras. Até que ele tomou gentilmente o celular das mãos dela, como quem diz: “Acorda minha nêga, you’ve got stuck in a moment and now you can’t get out of it” (título de uma música do grupo, que significa algo como ‘você paralisou num momento e agora não consegue sair disso’).”

Desirê, que revelou depois sonhar em ser atriz, desceu do palco para desfrutar seus 15 minutos de fama. Provavelmente pensando se aconteceria com ela o mesmo que rolou com a bancária Katilce. Aquela que, depois de dar um selinho na boca de Bono Vox na segunda-feira à noite, causou um verdadeiro furacão no Orkut.

A página de Katilce talvez tenha sido a que recebeu maior número de visitas no menor espaço de tempo na história dessa comunidade online. Em 48 horas foram colocados lá 939.267 recados. Uma barbaridade. Vários grupos também foram dedicados a ela, como “Eu vi Katilce beijar Bono” ou “Quero ver Katilce no Jô Soares”.

O número do celular de Katilce aparecia numa mensagem colocada no Orkut. Alguém descobriu, espalhou, e por causa da enxurrada de ligações que se seguiu, o aparelho foi entregue a uma amiga, que virou uma espécie de relações-públicas, filtrando as chamadas. Os jornalistas que tentavam contato com Katilce eram encaminhados para outro celular, que a família adquiriu só para negociar o cachê de suas entrevistas.

No lugar de Desirê, acho que eu não tentaria ficar tirando fotos em cima do palco. Mas talvez ela seja mais esperta do que eu. A tal foto que ela tirou com Bono, que aparece aqui nesta coluna, está sendo comercializada para todos os jornais e revistas interessados através do FotoRepórter, o programa de jornalismo cidadão do Grupo Estado. Definitivamente, este mundo está mudando mais rápido do que eu e meu velho isqueiro conseguimos acompanhar.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo