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Se os computadores parassem

Ricardo Anderáos

Em 1970, se todos os computadores do mundo parassem de funcionar subitamente, pouca gente se daria conta. Talvez bancos de atuação internacional fossem obrigados a operar mais lentamente e transmissões de TV ao vivo entre os continentes fossem interrompidas. Mas 99,99% da humanidade não seria afetada.

Em 1980 tive meu primeiro relacionamento mais íntimo com esses “cérebros eletrônicos”. Como aluno de engenharia no Mackenzie, tinha que escrever programas de cálculo de estruturas na linguagem Fortran 4. Depois entrava numa fila de alunos que serpenteava pelo pátio, com uma pilha daqueles velhos cartões perfuráveis nas mãos. Na minha vez, usava a perfuradora para transcrever cada linha de instruções do meu programa em buracos num daqueles cartões. Depois entregava tudo na secretaria e ficava dias esperando a resposta, um enorme formulário contínuo, com cada linha de instruções, entrada e saída de dados registrada. Aquela relação sofrida com o mundo dos bits não teve futuro. Acabei abandonando a Engenharia e fui fazer Faculdade de História na USP.

Em 1990 comprei meu primeiro computador pessoal. Era um PC 386, um verdadeiro luxo no Brasil da época, com seu reluzente monitor que exibia apenas duas cores, preto e amarelo – uma opção no lugar daqueles mais manjados, de fósforo verde. Ele chegou para aposentar minha máquina de escrever, trazendo consigo uma impressora matricial que varava a noite naquele creeeek-pipipi-creeek iritante, colocando no papel as 300 e tantas páginas de minha tese de pós-graduação.

Em pouco tempo decidi comprar um monitor mais caro, que exibia até 16 tons de cinza ou coisa parecida. Começava ali um relacionamento apaixonado, pontuado por minhas infidelidades em favor de novos e mais poderosos computadores, que foram sendo adquiridos um após o outro, em média a cada dois anos e meio. Dali em diante os “cérebros eletrônicos” passaram a fazer parte indissociável e cada vez mais fundamental da minha vida.

No ano 2000, se todos os computadores do mundo parassem de funcionar subitamente, seria o caos. A distribuição de energia elétrica seria interrompida instantaneamente. Como a imensa maioria dos veículos têm microprocessadores embutidos, só os carros e caminhões velhos continuariam rodando.

Aviões se chocariam no ar e todas as formas de comunicação seriam interrompidas, como telefones fixos, celulares e TVs. Ninguém conseguiria sacar dinheiro nos bancos e as empresas ficariam paralisadas. Com medo de panes localizadas, e bem menores do que essa, governos e companhias privadas gastaram bilhões de dólares na virada do século alterando seus sistemas informatizados para evitar o chamado ‘bug do milênio’.

Hoje, decorridos seis anos, o cenário hipotético de uma parada geral dos computadores seria ainda mais catastrófico. E a cada ano que passa, a dependência da humanidade em relação a esses “cérebros eletrônicos” fica cada vez mais profunda. Se os computadores parassem de funcionar para sempre, atravessaríamos um longo período de caos e barbárie, sem governo, energia, alimentos e transporte. Seríamos obrigados a reconstruir nossa civilização sobre bases totalmente diferentes.

Em 2070, se todos os computadores do mundo pararem de funcionar subitamente, a humanidade poderá ser completamente eliminada da face da Terra. Isso caso se materializem previsões de especialistas em tecnologia como o norte-americano Ray Kurweil, que fará uma palestra virtual em São Paulo amanhã.

Kurzweil é um inventor renomado, que criou várias tecnologias que permitem aos computadores interpretar linguagens simbólicas humanas. Ele criou um sintetizador eletrônico para seu amigo Stevie Wonder, desenvolveu o programa de reconhecimento óptico de caracteres OCR e softwares que tanto reconhecem a fala humana e a transcrevem em arquivos de texto (speech to text) quanto vice-versa (text to speech).

Em livros como The Age of Spiritual Machines e The Singularity is Near ele afirma que, em algumas décadas, passaremos de um ponto sem retorno no relacionamento homem-máquina. Assim como os automóveis, nossos corpos começarão a receber chips para tarefas cada vez mais complexas – da liberação de medicamentos no sangue a implantes que vão potencializar as capacidades do cérebro.

Em 20 anos, diz ele, computadores alcançarão o nível de inteligência de um ser humano. Assim, no decorrer deste século 21, os limites entre o que é homem e o que é máquina ficarão cada vez mais difíceis de determinar. Deve ser por isso que, em 1999, o próprio Kurweil previu a breve articulação de um movimento neoludita, revivendo em relação aos computadores a mesma ira dos trabalhadores têxteis ingleses, que destruíram fábricas com tecelagens mecanizadas no início do século 19.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo