Image Image Image Image Image Image Image Image Image Image
Scroll to top

Top

No Comments

Sandrinha e Zezinho

Ricardo Anderáos

Zezinho tem sete anos de idade e está cursando o primeiro ano do ensino fundamental em uma escola particular paulista. É um menino esperto e hiperativo, como muitos garotos dessa idade. Seu nome é fictício porque a história que vou contar aqui é absolutamente verdadeira.

Zezinho tem um amigo com 12 anos de idade chamado Huguinho. Os dois cresceram praticamente juntos, mas agora moram afastados. De vez em quando as famílias se encontram e eles podem brincar juntos novamente.

Só que, como muitos pré-adolescentes, Huguinho começou a ficar particularmente sensível a tudo que se relaciona a sexo. Por conta disso, na última vez em que os dois meninos se encontraram, ele resolveu mostrar para o amiguinho menor uma de suas últimas descobertas: as imagens de sexo explícito que descobriu no site www.sandrinha.com.br.

Huguinho tem na sala de sua casa um computador que não possui nenhum tipo de filtro ou programa para barrar sites impróprios. Assim ele conseguiu não apenas descobrir essa página, como também mostrá-la para o amiguinho de oito anos de idade.

O site é recheado de fotos para lá de explícitas. Quem clica no link “entrar” de sua home page acessa uma tela com o seguinte aviso: “Não nos responsabilizamos pelas fotos extraídas da internet e enviadas pelos usuários do site. Caso exista alguma foto sua publicada contra a sua vontade basta entrar em contato que retiramos imediatamente do site.”

Só que não há nenhum endereço para os incomodados entrarem em contato. E nem para os mais safadinhos enviarem as suas próprias fotos. Mas os meninos ficaram acreditando que era possível enviar imagens de mulheres nuas para lá.

O mais irônico é que a mãe do pequeno Zezinho é tão preocupada com os absurdos que existem na internet que nunca deixou o menino usar o computador livremente em sua casa. Ele freqüenta uma lan house na vizinhança para brincar com seus games preferidos e está prestes a ganhar seu próprio computador. Ou melhor, estava.

O endereço do site é tão simples de ser memorizado, mesmo por uma criança que acabou de se alfabetizar, que, quando Zezinho voltou para a escola, resolveu dividir a descoberta com seu colega de classe Luizinho. Não sei onde os dois viram o site da Sandrinha. O fato é que, depois de entrar na página, eles não conseguiam falar de outra coisa. Também, pudera.

Aí eles tiveram uma idéia brilhante. Resolveram procurar três coleguinhas de classe, Lalá, Lelé e Lili, também com sete anos de idade, para convencê-las a posar para algumas fotos que eles queriam colocar em uma página na internet. As meninas anotaram o endereço do site em suas agendas escolares e ficaram de olhar depois para ver do que se tratava.

Mas quando Zezinho e Luizinho contaram que planejavam fotografá-las no banheiro fazendo xixi e mostrando as bundinhas, elas ficaram completamente indignadas. “Ah é? Nós é que vamos tirar fotos de vocês pelados e mandar para lá”, explodiu uma delas. Ato contínuo, Lalá, Lelé e Lili foram para a diretoria reclamar da ousadia dos coleguinhas.

Não é difícil imaginar o rebuliço que tomou conta da escola. Todos os pais dessa turma foram informados do acontecido. A indignação foi geral. O pai de Zezinho era o mais revoltado. Depois de apertar o filho, descobriu os detalhes da história. Desnecessário dizer que o computador, ansiosamente aguardado pelo menino, agora deve demorar bastante a chegar.

Colocar um computador sem nenhum tipo de software que filtre conteúdos pornográficos ou controle o tempo de navegação nas mãos de uma criança é uma tremenda irresponsabilidade. O diabo é que pouca gente se dá conta disso para valer.

Os pais dessas crianças têm mais de 30 anos de idade. Gente que saiu da adolescência antes de o acesso à internet comercial começar no País. Muitos ainda dizem que não gostam ou não entendem de computadores. Mas, a partir do momento em que colocam essas máquinas em casa, para seus filhos utilizarem, passam a ter a obrigação de controlá-las melhor do que as crianças.

E não estou falando apenas dos pequenos, com menos de dez anos de idade. O catálogo de horrores e obscenidades a um clique do mouse é tão bizarro que mesmo os adolescentes devem ser preservados. Não se trata de censura: trata-se de exercer a paternidade de forma responsável e consistente.

Já publicamos vários artigos sobre esse tema aqui no Link. Alguns psicólogos defendem a idéia de que filtrar os conteúdos é uma violência, que o diálogo é a única coisa que podemos fazer. Eu não concordo. Claro que o diálogo é importante. Mas me sinto na obrigação de escolher o que meus filhos vêem. Aos poucos, à medida que se desenvolverem, vou baixando a guarda.

Você daria a chave de um carro para uma criança pequena? Com os computadores, vale o mesmo raciocínio. É claro que a criança não pode se matar com o computador ali na esquina. Mas pode sim sofrer danos irreparáveis

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo