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Romance da empregada

Ricardo Anderáos

Entrei na cozinha da minha casa em Ilhabela de manhã e encontrei a Márcia, que trabalha lá com a gente, sentada à mesa, praticamente arrancando os cabelos. Ela encarava seu celular com um olhar vidrado.

“Aconteceu alguma coisa?”, perguntei. Sua cara era de dar dó. “Ai seu Ricardo, apertei um botãozinho no meu telefone e apaguei todos os números dos meus amigos”, respondeu, quase aos prantos. Achei sua reação um pouco exagerada. Até que ela me explicou o resto da história.

Dali a dois dias ela completaria 22 anos e estava planejando um churrasquinho com os amigos na casa da tia. Só que todos os 70 telefones dos seus conhecidos estavam no celular.

“Você não tem nenhum número anotado em outro lugar, Márcia?” Ela me olhou com os olhos rasos d’água. Nem precisava falar mais nada. Fiquei olhando incrédulo. Em que época estamos. Até as pessoas mais simples estão aposentando o lápis e o papel.

“Assim não pode, Márcia. Você precisa ter um cabinho especial, ligar no computador que fica na sala de casa, enfiar a outra ponta no celular e…” Parei no meio da frase, tomando consciência do absurdo da situação.

Àquela altura do campeonato não adiantava nada dizer que ela deveria ter feito um backup. Será que ela sabe o que isso significa? Sem contar que a Márcia é muito boazinha, mas um pouco ansiosa. Ela devia estar se corroendo por dentro com essa história.

Para aliviar um pouco a barra da garota, sugeri que ela tentasse descobrir o telefone de pelo menos um de seus amigos, recuperasse os números de outros através desse primeiro e assim sucessivamente. De quebra, liberei geral o telefone de casa para essa operação.

Alguns dias depois, quando já estava em São Paulo, aqui na redação do jornal, liguei para casa e a Márcia atendeu. Não resisti à tentação de perguntar como foi a sua festa. “Ah, muito chata! Meus melhores amigos não foram. E o pessoal que foi, sabe gente chata? Comeram, beberam e não me deram nem um presentinho.”

Como já não estávamos mais no calor da hora, arrisquei perguntar se ela tinha ouvido falar de uma coisa chamada backup. “Acho que ouvi sim, no meu curso de informática. Mas não lembro o que é isso não.”

Curso de informática? Pois é. Dentro de uma promoção oferecida na escola onde ela estuda, Márcia se inscreveu num curso de informática de um ano, foi sorteada e ganhou uma bolsa parcial. Ao invés de pagar uma mensalidade de R$ 300, ela paga apenas R$ 50. O curso tem módulos especiais sobre Windows, Word e Excel. E outros com informática aplicada a diversas funções, como recepcionista, secretária e administração.

“Eu estou indo superbem, na prova de administração tirei um 10!”, contou, animada. Aí eu expliquei que backup é uma cópia de segurança de arquivos. E ela reconheceu que era isso que deveria ter feito com a agenda do seu telefone celular.

Mas é pouco provável que o aparelho da Márcia, um pré-pago bem simplesinho, tenha como acessório um kit de transferência de dados para computador. Normalmente, esses kits só são vendidos para aparelhos mais caros. Quando puder, vou ver se consigo encontrar um desses para ela, como presente de aniversário atrasado.

Com quase 80 milhões de celulares pelo Brasil afora, dá para imaginar o número de pessoas correndo o risco de cair no mesmo buraco que a Márcia?

Alô alô, operadoras e fabricantes de aparelhos: em vez de ficar lançando penduricalhos como toques com musiquinhas do hit-parade e câmeras fotográficas de qualidade sofrível, que tal colocar o foco no cliente e resolver problemas mais urgentes, como esse do backup? Alô alô, consumidores: vamos parar de gastar dinheiro com frescuras e exigir aparelhos e serviços mais essenciais.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo