Image Image Image Image Image Image Image Image Image Image
Scroll to top

Top

No Comments

Professor aloprado

Ricardo Anderáos

Lawrence Scott Ward é professor emérito na Faculdade de Administração de Wharton, na Pennsilvânia, EUA. Com 63 anos, está aposentado, mas continua dando aulas em diversas instituições de ensino.

Mês passado, o professor veio passear no Brasil. No último dia 27, terminadas suas férias, pegou o avião de volta para casa. Desembarcou no Aeroporto Dulles, em Washington, e se dirigiu para a fila da fiscalização de entrada destinada aos cidadãos norte-americanos.

Depois da onda de atentados terroristas dos últimos anos, os serviços de imigração dos EUA passaram a ser muito mais meticulosos. Não são apenas os cidadãos de países árabes e terceiro-mundistas com barba mal feita que recebem maiores atenções das autoridades. O pente-fino não deixa ninguém de fora. Todos os dados dos viajantes são cruzados e analisados à exaustão. E foi exatamente aí que o respeitável professor Ward entrou pelo cano.

Quando o fiscal da imigração passou o passaporte do homem no leitor óptico, um software que identifica potenciais criminosos sexuais chegou à conclusão de que o professor tinha feito um número excessivo de viagens à Tailândia e ao Brasil nos últimos anos, países classificados como paraísos do turismo sexual pelo US Immigration and Customs Enforcement.

O resultado foi que o sistema recomendou uma bela geral no professor. No seu laptop os policiais encontraram vídeos de Ward mantendo relações sexuais com rapazes aparentando cerca de 14 anos de idade. Outro vídeo mostrava duas crianças, com cerca de 8 anos de idade, mantendo atividades sexuais.

Ward foi imediatamente preso, sob a acusação de importar material de pornografia infantil para o país. Dois dias depois, revistando seu escritório na Universidade da Pennsilvânia, a polícia encontrou mais dois computadores e dezenas de CDs e DVDs recheados de imagens de pornografia infantil.

Quando a ficha do homem foi levantada pelos agentes federais, ficou claro que se tratava de um profissional do ramo. Em 1995, um júri popular o inocentou da acusação de pagar para manter relações com um adolescente. Pouco tempo depois ele foi novamente processado, dessa vez por solicitar, via internet, os serviços sexuais de um jovem de 15 anos de idade – que, na verdade, era um agente federal disfarçado, servindo de isca numa operação de caça a pedófilos. No final pagou uma multa de US$ 2,5 mil e foi condenado a prestar 5 anos de serviços comunitários.

Desta vez as coisas provavelmente serão bem mais complicadas. Se condenado, Ward pode pegar até 20 anos de prisão. Um juiz fixou sua fiança em US$ 2 milhões. Como não tinha condições de pagar esse valor, o professor aguarda o julgamento atrás das grades.

Nos últimos anos, graças à colaboração entre grandes empresas como a Microsoft e alguns departamentos de polícia, como o do Canadá, foram desenvolvidos sistemas de rastreamento e identificação que têm desbaratado quadrilhas de pedófilos em vários países do mundo. A grande novidade nesse caso foi o fato de o professor Ward ter sido pego pelo seu histórico de viagens aéreas – um procedimento que normalmente identifica suspeitos de tráfico de drogas, mas não de pedofilia.

Nas entrelinhas dessa história fiquei com uma dúvida: como os agentes de imigração analisaram o disco rígido do laptop do professor? Acho pouco provável que eles tenham aberto arquivo por arquivo para identificar seu conteúdo. Algum software esperto eles devem ter para fazer isso. O que me leva a pensar novamente que a idéia de privacidade, no mundo digital, não passa de uma enorme ilusão.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo