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Petite anglaise

Ricardo Anderáos

O telefone tocou na mesa da secretária Catherine. O visor mostrava o ramal de seu chefe. Quando atendeu, ele falou de maneira seca: “Venha à minha sala, por favor.” Seu tom de voz autoritário normalmente deixava a moça nervosa. Mas daquela vez ele parecia particularmente estranho.

Quando Catherine entrou na sala, ele fechou rapidamente a porta atrás dela e disparou: “Lamento dizer que a chamei aqui para comunicar que você está demitida. O motivo é o seu site na internet.”

“Ele descobriu o petite anglaise! Mas como?”, pensou a moça. Afinal, o blog que ela mantém no endereço www.petiteanglaise.com nunca usou nomes reais ou fez referências explícitas à empresa de contabilidade Dixon Wilson, na qual ela trabalhava em Paris. Sem contar que a maioria das notas era dedicada ao seu relacionamento com “Mr Frog”, pai de sua filhinha de três anos de idade. As referências ao trabalho eram ocasionais.

“Mas… eu nunca falei do trabalho…”, balbuciou. “Ao contrário, você falou muito de seu trabalho na minha opinião. E ao fazer isso comprometeu a reputação da empresa. Sem contar que tenho sérios motivos para acreditar que você atualizava seu blog durante o horário de trabalho”, respondeu o chefe.

Ele pediu que ela assinasse uma carta de demissão e fosse embora imediatamente. Mas como a empresa alegou demissão por justa causa, Catherine entrou com um processo contra seus empregadores. O caso ganhou repercussão e chegou às páginas dos jornais franceses e ingleses.

O caso de Catherine não é a primeira nem tampouco a mais famosa história de demissão causada por um blog. A aeromoça Ellen Simonetti, da Delta Air Lines, que mantém o blog Queen of the Sky no endereço http://queenofsky.journalspace.com, foi demitida depois de colocar nessa página fotos em poses levemente sexies vestindo o uniforme da empresa.

Semana passada foi divulgada uma pesquisa de abrangência nacional realizada nos EUA pela Pew Internet & American Life Project. A conclusão é que a maioria dos blogs descreve experiências pessoais para uma pequena audiência. Menos de um terço dos blogueiros vê a atividade como uma forma de jornalismo. E uma proporção ainda menor se decida a cobrir assuntos específicos, como tecnologia ou política.

Somente nos EUA, 12 milhões de adultos mantêm blogs. Mas, se a maioria é escrita para públicos bem restritos, no conjunto essas páginas têm uma enorme audiência: a pesquisa mostra que 57 milhões de norte-americanos acessam blogs regularmente. Cerca de 84% definem seus blogs como um hobby, “alguma coisa que eu simplesmente faço, sem dedicar muito tempo a isso”. Mais da metade dos blogueiros usa pseudônimo no lugar do próprio nome.

Num artigo sobre a “petite anglaise”, a agência de notícias da BBC destaca algumas regras para os blogueiros evitarem dores de cabeça. Como a recomendação para não confiar num pseudônimo para manter a privacidade, ter consciência de que o que escreve pode ser usado para difamá-lo e respeitar os direitos autorais. Por último, mas não menos importante, evitar piadas que possam embasar uma ação penal de assédio sexual ou preconceito racial.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo