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Perdoa-me por me traíres

Ricardo Anderáos

Paulo estava comodamente em sua casa, numa noite de domingo, curtindo um DVD que pegou na locadora do bairro. No momento de maior tensão do filme, tocou a campainha. Era Carlos, um amigo que ele não via há algum tempo. Ele estranhou a visita inesperada, Parou o filme praguejando e foi abrir a porta.

Eles começaram a conversar ali mesmo, mas logo em seguida chegaram homens armados. A casa foi invadida e os dois foram amarrados no banheiro, enquanto os ladrões limparam a residência. O prejuízo foi total.

No dia seguinte, no trabalho, Paulo contou o caso para os colegas e resolveu mostrar uma foto do amigo que lhe trouxe todo aquele azar. Acessou a página de Carlos no Orkut e, quando começou a olhar as imagens que estavam lá, teve um choque: um dos ladrões aparecia abraçado ao amigo da onça! Tinha sido tudo uma armação. A foto foi impressa e levada para a polícia. Carlos está respondendo a um processo por cumplicidade.

Rosa trabalha no departamento de marketing de uma grande empresa e estava selecionando candidatos para um novo cargo na área de atendimento ao cliente. Depois de diversas entrevistas, finalmente encontrou um rapaz promissor. Educado, bom currículo, motivado, parecia talhado para a função.

Rosa já tinha encaminhado sua ficha para o departamento de recursos humanos concretizar a contratação quando, depois de atualizar sua própria página no site de relacionamentos, resolveu ver se o futuro funcionário tinha uma página por lá. Ficou pasma com o que encontrou.

Na foto que ele escolheu para seu perfil o gentil rapaz fazia um gesto obsceno. Pior: ele integrava várias comunidades racistas. Numa delas, Rosa leu barbaridades que o rapaz escreveu sobre o holocausto nazista.

Desnecessário dizer que a contratação foi cancelada no minuto seguinte.

Marcela está vivendo um inferno com sua separação. Apesar de ter uma filha pequena, decidiu abandonar o marido depois de inúmeras traições e promessas quebradas. O caso, é claro, foi parar nos tribunais. E uma das peças centrais em sua luta para não perder a guarda da criança são exatamente as páginas do ex-marido em sites na internet, de onde se depreende que o sujeito era um pervertido.

Fiquei sabendo dessas histórias através de amigos comuns que tenho com essas pessoas. Os nomes são fictícios, para preservar os envolvidos, mas os relatos são, na medida do possível, fiéis. O fio condutor, o que realmente interessa em cada uma delas, é a cegueira aparente dos envolvidos. Será que não sabiam das conseqüências de revelar facetas nefastas de suas personalidades na praça pública de nossos tempos, que são os sites de relacionamentos?

Navegando pelo Orkut, pelo MySpace ou por nossa comunidade no site do Link fico com a impressão de que o inconsciente individual borbulha nesses espaços coletivos. Será que essas pessoas não imaginavam que os textos e fotos que colocaram online seriam vistos por conhecidos? Ou será que, intimamente, sabiam do contrário, mas tinham um desejo inconsciente de afirmar suas mazelas em público?

Nos contos de fadas, o mal está encarnado em um personagem que prejudica os outros. Nas tragédias gregas, nos romances clássicos e na ficção de qualidade, os protagonistas muitas vezes sofrem as conseqüências do mal e da violência que reside dentro de cada um de nós e que, ao ser denegado, irrompe incontrolavelmente.

Ah, se Nelson Rodrigues pudesse ver o Brasil virado do avesso no Orkut. É possível que mesmo ele ficasse encabulado.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo