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Online é melhor?

Ricardo Anderáos

Há tempos Jessica, uma empresária inglesa de 37 anos, vinha se desentendendo seriamente com o marido por causa das altas contas de telefone. Apaixonado por computadores e entusiasta da internet desde os primórdios da web, ele costumava ficar até altas horas da noite navegando e baixando arquivos pela rede. Por isso Jessica achou que contratar uma conexão de banda larga, que liga o computador diretamente à internet em alta velocidade e dispensa o uso do telefone, ajudaria a melhorar seu relacionamento de 15 anos com o marido. Puro engano.

Com o computador conectado 24 horas por dia, a situação piorou. Jessica se convenceu de que o marido estava viciado na internet. Mas uma noite, ao entrar repentinamente no escritório, percebeu de relance que ele estava baixando imagens pornográficas, antes que mudasse rapidamente de tela. Daí em diante começou a espioná-lo, e descobriu que ele era viciado mesmo. Não na internet, mas sim no consumo de pornografia online e na prática de sexo virtual com parceiras que conhecia pela rede.

“Nós sempre desfrutamos de um relacionamento sexual bastante satisfatório. Nunca tivemos problemas nessa área. Por isso jamais suspeitei de nada”, declarou Jessica, que preferiu manter seu sobrenome em segredo em entrevista ao jornal britânico The Independent. Apesar de ter uma filha de 5 anos, ela acabou se separando após descobrir que o marido partiu para as “vias de fato” com uma parceira de sexo virtual.

Jessica é apenas uma entre milhões de mulheres que vêm sofrendo as conseqüências da vida sexual secreta que seus maridos mantêm na internet. Uma pesquisa elaborada pela Nielsen NetRatings e divulgada pelo Independent on Sunday revela que mais de 9 milhões de homens britânicos visitaram websites pornográfios no ano passado.

Mas não são apenas eles que vêm usando a rede para saciar seu apetite sexual. O primeiro estudo em grande escala do sexo na internet no país mostrou que é entre elas que esse hábito cresce mais rapidamente. Em 12 meses, o número de britânicas que acessam sites pornográficos cresceu 30%, passando de 1 milhão para 1,4 milhão.

Outro dado importante desse estudo é que 40% dos casais britânicos com disfunções sexuais culpam a pornografia online por ao menos parte de seus problemas. A pesquisa também confirma a idéia de que os homens preferem os sites com fotos e vídeos, enquanto as mulheres usam salas de bate-papo para buscar parceiros para a prática de sexo virtual. E, ao contrário dos homens, as mulheres que consomem pornografia na rede tendem a ver essa prática como uma forma de traição a seus maridos e namorados.

Pat Jones, um treinador esportivo de 47 anos, disse ao jornal inglês que seu vício pelo consumo de pornografia online destruiu seus relacionamentos e o levou à beira do suicídio. “Foi na internet que minha obsessão pela pornografia realmente ganhou asas. Antes eu só tinha acesso ocasional a vídeos que meus colegas traziam para o trabalho.”

Ele acredita que existem mais viciados em sexo do que em álcool ou drogas, e que pouco a pouco essa doença começa a ganhar reconhecimento. Jones comparece semanalmente às reuniões da Sex and Love Addicts Anonymous, ou SLAA, uma espécie de Alcoólicos Anônimos do sexo. A organização foi criada em Massachusetts no ano de 1976 por membros do Alcoólicos Anônimos que não conseguiam discutir livremente seus problemas sexuais nas reuniões do AA. Seu website fica no endereço http://www.slaafws.org.

Por tudo isso não é de espantar outra revelação desse estudo: que metade das crianças britânicas já tropeçaram em vestígios de pornografia online enquanto procuravam “outras coisas” na internet ou nos computadores de suas casas. Nada disso, obviamente, é privilégio britânico. Em nosso mundo globalizado as questões de comportamento relacionadas à tecnologia atingem a todos os países de maneira similar.

Um último aspecto na história de Jessica merece ser destacado: ninguém fica “viciado em internet” pura e simplesmente. A rede é um meio. As pessoas podem ficar viciadas em atividades que desenvolvem por meio dela, como consumir pornografia, trocar músicas, jogar videogames, papear no MSN ou simplesmente trabalhar. Se você conhece alguém que coloca o computador na frente de seu relacionamento com outros seres humanos, tente conversar para saber a real razão de seu vício e ajudá-lo de fato.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo