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O ataque dos torpedos

Ricardo Anderáos

Como milhões de adolescentes modernos, o escocês Steven, de 19 anos, vive pendurado no celular. E, como é comum entre essa moçada, não usa o aparelho só para falar. Ele adora enviar mensagens de texto pelo telefone, conhecidas como torpedos ou SMS (short message system).

A vida de Steven transcorria sem grandes sobressaltos na localidade de Paisley, perto de Glasgow. Lá ele estudava, tinha um emprego e uma namorada,com quem mantinha uma relação de traços levemente obsessivos. Coisa típica dessa idade.

Até que um de seus colegas de trabalho recebeu, por engano, um e-mail que Steven havia enviado para a namorada. Como acontece com e-mails que são enviados, respondidos e assim suvcessivamente, era possível acompanhar por ali o diálogo mantido pelos dois.

O conteúdo não tinha nada de muito esquisito. O que surpreendeu o colega de Steven foi o número de mensagens. Dezenas num mesmo dia, trocadas em intervalos de minutos. A mensagem foi repassada ao chefe do rapaz, que fez um levantamento. E chegou a um resultado alarmante: nos 30 dias anteriores, Steven enviou nada menos que 8 mil e-mails.

Confrontado pelo chefe, ele admitiu o erro e deixou o emprego. Funcionários da assistência social do governo procuraram Steven para auxiliá-lo e acabaram descobrindo que seu verdadeiro vício não era o e-mail, mas sim o SMS.

Em média, Steven enviava semanalmente 700 mensagens de texto pelo telefone, a esmagadora maioria para a namorada. Ele acompanhava cada passo da moça ao longo do dia. Mas mensagens de SMS custam dinheiro. Ao contrário do e-mail, que pode ser enviado gratuitamente por quem já paga uma conexão com a internet.

O resultado é de deixar qualquer pai de cabelos em pé: nos 12 meses antes de ser demitido, Steven gastou quase R$ 18 mil com mensagens de texto pelo telefone! Philip Irvine, dos Alcoólatras Anônimos de Paisley, que está tratando do jovem, disse nunca ter visto algo parecido em 10 anos trabalhando com viciados de todos os tipos.

Em entrevista à BBC, Steven afirmou: “É reconfortante receber mensagens pelo celular. Gosto muito, é como jogar pingue-pongue, você manda para lá e a coisa volta para cá.”

Steven rompeu com a namorada, o que auxiliou em seu tratamento. Ele continua usando o celular, mas de maneira menos compulsiva. E para nós fica o alerta de que a combinação de uma tecnologia invasiva como o celular com um meio de comunicação silencioso e certeiro como o torpedo pode ter conseqüências devastadoras. É ótimo, mas precisa saber usar.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo