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Guerra no ciberespaço

Ricardo Anderáos

Na último dia 10 um hacker peruano autodenominado Cyberalexis invadiu o site da Defesa Civil do Ministério do Interior do Chile. No lugar da página oficial, que aparece normalmente no endereço http://www.onemi.cl, ele colocou outra com uma série de ofensas ao país vizinho.

“Nosotros hacemos con nuestra política y nuestro mar lo que nos parezca”, escreveu o irado Cyberalexis. E, depois de distribuir uma série de insultos impublicáveis contra chilenos em geral, arrematou afirmando que “nuestro cebiche y el pisco nadie podrá comparar ni igualar su calidad”.

Para completar sua “obra”, colocou na página fotos de dois homens mantendo relações sexuais. O ativo com uma legenda onde se lia “peruano” e o passivo com a legenda de “chileno”. Os hackers dão a esse tipo de ação o nome de defacement, ou desfiguração.

O contra-ataque veio rápido. Na madrugada da segunda para a terça-feira o site do Poder Judiciário do Peru foi invadido por um hacker chileno não-identificado. “No somos obscenos, peleamos por lo nuestro; el mar y el pisco son chilenos !!!!!”, era o destaque na página que fica no endereço http://www.pj.gob.pe. E, para completar, veio uma chuva de impropérios contra Cyberalex e todas as mães de família do Peru. Começou assim aquela que talvez seja lembrada no futuro como a primeira guerra no ciberespaço.

Essa batalha de hackers tem raízes na Guerra do Pacífico, entre 1879 e 1884. Nela o Chile tomou da Bolívia sua saída para o mar e uma extensa área no sul do Peru, rica em minerais. De lá para cá, cada vez mais o Chile se destacou frente aos vizinhos nos aspectos econômico e militar. O Peru não se conformou. Nos anos 1950, um tratado diplomático tentou pôr um ponto final no assunto.

Mas, como ficou claro pelo conteúdo da desfiguração que os hackers fizeram nos sites oficiais dos dois países, a disputa fronteiriça é apenas parte do problema. Porque antes de invadir o ciberespaço, essa guerra passou pela cozinha.

Primeiro por causa do ceviche, um prato de peixe marinado com limão, comido cru ao molho de tomate, cebola e coentro, criado pela civilização Inca, na região do Peru. E que hoje é a iguaria nacional de vários países latino-americanos.

Depois, por causa do Pisco. Essa aguardente, fermentada e depois destilada a partir da uva, surgiu na região dos rios Ica e Pisco, no Peru. Mas hoje o país produz apenas 3 milhões de litros de Pisco por ano. O Chile produz 24 milhões.

Em represália, o Peru entrou com um processo na Organização Mundial do Comércio, tentando impedir o vizinho de usar o nome “Pisco”. E, em julho deste ano, a Organização Mundial de Propriedade Intelectual da ONU deu parecer favorável ao Peru para discutir a criação de uma denominação de origem controlada da bebida.

Mas a coisa esquentou de vez em outubro, quando o presidente peruano, Alejandro Toledo, apresentou um projeto de lei que redesenhava a fronteira marítima entre os dois países. O Congresso peruano aprovou o projeto por unanimidade. O que resultaria, em tese, na incorporação de uma área de aproximadamente 40 mil quilômetros quadrados do mar territorial hoje sob domínio chileno.

O governo do Chile afirma que essa nova lei viola os tratados dos anos 1950. E iniciou uma campanha diplomática para barrar as pretensões do Peru. O presidente chileno, Ricardo Lagos, declarou no início de novembro que “vai continuar a exercer sua completa soberania sobre essa área”.

O primeiro resultado das ações dos hackers foi a desativação dos sites da Defesa Civil do Ministério do Interior do Chile e do Poder Judiciário do Peru. O site peruano voltou a funcionar no dia seguinte. Já o endereço chileno continuava com um aviso de “Sitio en Mantención, disculpe las molestias” até o fechamento desta coluna, na última sexta-feira.

Essa não foi a primeira vez que hackers dos dois países aprontaram em território alheio. Em 2003, depois que a seleção do Chile derrotou a do Peru por 2 a 1 nas eliminatórias da Copa do Mundo, hackers peruanos atacaram site de literatura que fica no endereço http://www.letrasdechile.cl. A mensagem colocada na home page pelos peruanos foi “¿Les gustó ganar?, ¡ahí tienen!”.

Mas nesta semana, pela primeira vez, aconteceram ataques a sites oficiais de governo. E dos dois lados da fronteira em litígio. Ainda que tenham sido perpetrados por civis, e de maneira aparentemente isolada, esses eventos me fazem pensar em como poderia ser, num futuro próximo, um cenário de guerra com as armas da tecnologia de informação.

No lugar de pendurar fotos pornográficas em sites “periféricos”, uma verdadeira batalha no ciberespaço poderia detonar redes de comunicação, energia elétrica, serviços bancários e outras atividades vitais do país inimigo. Está longe de ser ficção. Quem viver, verá.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo