Image Image Image Image Image Image Image Image Image Image
Scroll to top

Top

No Comments

Google e o Oráculo de Delfos

Ricardo Anderáos

O Google é o Oráculo de Delfos do terceiro milênio. Não há resposta que ele não encontre. Não há pessoa que ele não conheça. Nesta era da informação, ele é o centro do mundo, o olho do furacão. Há quem tenha medo que Bill Gates, criador da Microsoft, se transforme no Grande Irmão do século 21. Mas você já experimentou colocar seu nome no Google e dar um clique para ver o que rola? Ainda não? Então, provavelmente, vai ficar assustado.

Assustado como Matthew Shirts confessou ter ficado semana passada, em sua coluna no Caderno 2, quando o e-mail do Google começou a mostrar para ele anúncios relacionados com o conteúdo das mensagens que ele estava trocando com uma prima. “Eles nos conhecem?”, perguntou ela, ao perceber que a publicidade aparecia na tela do Gmail conforme mudavam os assuntos sobre os quais eles escreviam – Angelina Jolie, culinária, literatura. Eles nos conhecem?

Durante uns 1.500 anos, o Oráculo de Delfos, ou templo de Apolo, era o principal ponto de atração de peregrinos do mundo grego. O pessoal ia até lá consultar as pitonisas, sacerdotisas que interpretavam a palavra dos deuses para responder qualquer pergunta dos humanos. As previsões de Delfos influenciaram a evolução da civilização grega, orientando as decisões de reis e tiranos, filósofos, artistas e gente comum.

Uma das versões da mitologia diz que Zeus queria descobrir com exatidão o centro do mundo. Engenhoso, o deus soltou duas águias nos extremos opostos da Terra. Quando a sombra do vôo delas se cruzou, ele marcou o local com uma pedra, que passou a ser conhecida como ônfalos, o umbigo do mundo. E anunciou que, naquele local, entraria em contato com quem quisesse fazer consultas ou pedir orientações.

O problema é que essa região era dominada por uma cobra monstruosa conhecida como Píton. Apolo, o deus mais bonitão do Olimpo, se ofereceu para enfrentar a serpente. Na luta da razão apolínea contra as forças primitivas e irracionais da natureza, simbolizadas pelo medo ancestral que nós humanos temos das cobras, Apolo levou a melhor. A Píton foi sepultada no local onde foi erguido o templo de Delfos, no Golfo de Corinto. E lá, Apolo e Zeus começaram a dar o recado para os mortais.

Suas palavras vinham através das pitonisas, que entravam em transe graças ao “fumo sagrado”. Uma das hipóteses é que elas fossem intoxicadas pelos gases sulfúricos que emanavam das encostas do Monte Parnaso, onde fica o Oráculo. Suas palavras eram desconexas, pronunciadas numa linguagem cifrada, conhecida pelo nome de sibilina, referência a uma das mais famosas pitonisas, chamada Sibila. O falatório era religiosamente anotado por sacerdotes, que o interpretavam e repassavam as mensagens aos consulentes. O Oráculo de Delfos funcionou ininterruptamente, desde 1.200 a.C até o final do século 2 de nossa era.

A história e o modus operandi do Google são muito menos pitorescos que os do Oráculo de Delfos. Mas sua engenhosidade é análoga à de Zeus com suas águias. O segredo do sucesso do oráculo digital é conhecido pela expressão inglesa backlink, ou link reverso, numa tradução rasteira.

Em 1996, dois pós-graduandos da Universidade de Stanford, Larry Page e Sergey Brin, tiveram uma idéia simples e brilhante: o melhor meio de encontrar conteúdos relevantes na internet seria descobrir quantas páginas possuíam links para uma determinada página “x”. Se essa página “x” fosse realmente importante, muitas outras apontariam para ela. Esses seriam os tais backlinks. É assim que o Google define quais resultados ele apresenta para a gente em primeiro lugar.

Os computadores do Google ficam permanentemente navegando pela internet, entrando em cada página e cadastrando cada palavra escrita nessas páginas. Assim eles criam uma gigantesca mistura de dicionário com catálogo de endereços. Quando a gente digita uma palavra naquela caixinha em sua home page, o Google vai até o dicionário, levanta todos os endereços associados a essa palavra, e monta uma página para nós em milissegundos. Ela traz links para todas as páginas onde a tal palavra foi encontrada. E as páginas que têm mais backlinks, aparecem no topo dessa lista.

Onze anos de internet comercial geraram mais informação do que a humanidade produziu desde as pinturas nas cavernas de Lascaux, 17 mil anos atrás. Neste exato momento, o diabo do Google já vasculhou exatas 8.058.044.651 páginas. Se você visitar o site depois de ler esta matéria, esse número terá aumentado legal.

Para aplacar o medo de sua prima, Matthew Shirts foi olhar a política de privacidade do Google. E se disse aliviado em saber que, segundo a empresa, “nenhum humano lerá o conteúdo do seu e-mail”, e que a “publicidade e páginas relacionadas são escolhidas automaticamente”. É bastante louvável confiar na boa-fé da empresa. Mas escândalos como o da Enron nos ensinam quanta responsabilidade está por detrás da grandes corporações norte-americanas.

Sem contar que o fato de “humanos” não lerem nossas mensagens no GMail e nosso perfil no Orkut, outra empresa Google, não me deixa muito aliviado não. Pelo menos, não por muito tempo. Como digo e repito por aqui, antes do fim deste século teremos de nos entender com uma inteligência não biológica. Que vai pensar na velocidade do Google. E, talvez, nos julgar com a frieza de Zeus.

Originalmente publicado na coluna semanal do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo

Previous Story

There are no older stories.