Hiperconectado - com Ricardo Anderáos

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02.06.2011

Fotografia digital pode roubar o prazer de viajar

Há 15 anos, quando a gente só tinha à disposição as tradicionais câmeras com filmes fotossensíveis, havia uma rigorosa economia no ato de fotografar. Lembro que durante as viagens minha máquina ficava a maior parte do tempo na mochila, esperando a hora e o local exatos para ser sacada e produzir lembranças raras e preciosas.

Fotografar era caro. E não apenas porque era preciso comprar filmes de 12, 24 ou 36 poses, ASA 100, 200 ou 400, que depois tinham de ser revelados em laboratório. Havia ainda o custo das ampliações coloridas. Existia gente que, para economizar, preferia fotografar tudo em preto-e-branco. Acredite se quiser.

Fotografar também era bem mais complicado. O que naquela época chamávamos de “câmeras automáticas” eram aparelhos de foco fixo, toscos se comparados com as mais simples digitais hoje à venda no mercado. Zoom, só em modelos caros e pesados, cuja “inteligência” se resumia a oferecer escolha entre prioridade de abertura ou velocidade, e ponto final.

A alucinante evolução da fotografia digital colocou à disposição de qualquer mortal aparelhos sofisticadíssimos. Um clique, hoje, custa virtualmente zero. Podemos rever as fotos na própria máquina e apagar as evidentemente ruins. Depois, no computador, é possível analisar as imagens em tamanho maior e apurar a seleção do que vai ser guardado. Imprimir, só se for para presentear a vovó desconectada que ainda não ganhou um “digital frame”.

As melhores imagens de nossas viagens acabam recheando nossos perfis no Facebook e transformando-se em tema de comentários dos amigos de nossos amigos. Smartphones, hoje, tiram fotos que rivalizam com câmeras profissionais do século passado, e podem ser postadas instantaneamente via Twitter, no momento em que são sacadas, mesmo que a gente se encontre do outro lado do mundo. E elas ainda vêm com as coordenadas GPS embutidas.

Genial, não? Sim, mas só até certo ponto. Todas essas facilidades potencializam nossa tendência de guardar o maior número de recordações turísticas, e podem até estragar momentos-chave para alguns viajantes. Há pouco mais de um ano no coração do Taj Mahal, dentro da tumba que o imperador Shah Jahan mandou construir para sua esposa preferida, vi um turista sendo arrastado para fora pelos seguranças, por sua insistência em não respeitar os avisos de não fotografar. Ainda que nem sempre a coisa descambe para situações tão dramáticas, é fato que muita gente gasta mais energia detrás das lentes do que verdadeiramente desfrutando dos lugares por onde passa. E essa vontade de reter o momento único, de provar que estivemos lá, acaba sendo multiplicada por nosso crescente vício de interação através das redes sociais.

Apesar de ser entusiasta da tecnologia, não tenho como negar que câmeras, celulares, Facebook e Twitter são um irresistível convite à compulsão. Por isso, tome cuidado para que a fotografia digital não roube parte de seu autêntico prazer de viajar.

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Lutiene escreveu:

Bela observação Ricardo!!!

Aprendi isso na última viagem que fiz em Maio/ 2011, quando me dei conta que não estava relaxando por causa da preocupação em registrar o máximo em fotos, parei e pensei: as fotografias não podem 'roubar' uma viagem. Mudei de atitude e comecei a curtir mais.

11.06.2011 - 19h:01

Fernando Bianchi escreveu:

O prazer de fotografar

Pra mim, o prazer de viajar está 100% ligado ao prazer de fotografar. Só curto os lugares através da lente da minha câmera. Só enquadro aquilo que curto e que quero eternizar. Além de saber que não estou destruindo o meio ambiente com a compra dos filmes e as revelações.

04.08.2011 - 10h:12

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