Hiperconectado - com Ricardo Anderáos

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09.10.2006

A fábrica de câmeras digitais

Depois de uma hora e meia de viagem, o ônibus fez uma última curva e entrou pelo portão da fábrica que estávamos indo visitar em Yamagata, no interior do Japão. Eu e os outros jornalistas latino-americanos começamos a reunir nossas coisas para descer do veículo, quando antes dele estacionar, alguém gritou em castelhano ??mira que recepción magnifica!?.

Olhei pela janela e quase não acreditei no que vi. Na porta do edifício principal, onde são produzidas câmeras digitais e chips de memória de última geração, dezenas de operários em uniformes impecáveis agitavam bandeirinhas com o nome da empresa e acenavam nos dando as boas vindas. Alguns estavam usando toquinhas brancas, e muitos calçavam chinelos da mesma cor. Não houve como não achar aquilo tudo muito engraçado.

Descemos do ônibus e atravessamos um corredor polonês de japoneses que inclinavam o corpo em reverência diante de nós. ?Konichiwa, konichiwa?, repetiam eles, dando nos bom dia. A gente se inclinava também, retribuía os cumprimentos e ia avançando para dentro do edifício. A amabilidade e o respeito com que as pessoas tratam umas às outras por aqui é absolutamente desconcertante para os padrões ocidentais.

Dentro do prédio fomos recebidos pelos executivos da companhia que nos convidou a fazer esta viagem ao Japão. Depois de outra série de reverências e cumprimentos, fomos conduzidos às nossas respectivas mesas. Como sempre, em turmas separadas: os jornalistas latino-americanos numa coluna, os europeus em outra, os norte-americanos em numa terceira. Cada continente chegou ali em seu próprio ônibus. Tudo delirantemente bem organizado.

Quatro executivos fizeram breves apresentações em Power Point para os cerca de 50 visitantes. Diferentemente do que estou acostumado a ver entre executivos brasileiros, ninguém ficou tentando parecer mais sabido do que a sua platéia. Pelo contrá?io, às vezes eles eram até tocantes de tão simples.

Antes de entrar na área de produção foi nossa vez de colocar chinelinhos, avental e toquinha branca. Ficamos todos tão ridículos que não houve como deixar de tirar fotos e dar muita risada. O clima não parecia o de uma visita a dos lugares mais hi-tech do planeta. Parecia que eu tinha voltado ao jardim da infância.

Visitamos passo a passo as etapas de produção das câmeras e chips de memória, do polimento de lentes de alta precisão à montagem final dos produtos. Apesar dos inúmeros robôs e da alta tecnologia dos processos e dos produtos que eles fabricam, o ambiente não tem nada de ficção científica. Ao contrário, a aparência é extremamente simples. Tudo parece saído de um filme dos anos 50. Me lembrou a extinta fábrica de roupas Patriarca, na qual meu pai trabalhou por muitos anos, e onde eu adorava ir visitá-lo. A fábrica japonesa é muito mais limpa e bem organizada, é claro. Mas ainda assim é estranhamente parecida com uma velha fábrica de roupas no Brasil.

Me chamaram a atenção diversos quadros colocados nas paredes de cada seção, com as fotos dos funcionários, as metas que eles deveriam alcançar e seus resultados até o momento. Em outro local, as fichas dos funcionários eram organizadas numa pirâmide, com aqueles com maior número de cursos de especialização no topo, e os outros menos qualificados na base. Ficou claro que a competição e a cobrança são absolutamente constantes no dia-a-dia desses trabalhadores. A performance de cada um é sempre exposta de maneira pública e notória.

Mas a maior surpresa apareceu no terceiro pavimento, onde as placas eram escritas em japonês e português. Quando perguntei o motivo para o executivo que nos guiava, ele revelou que dos 400 funcionários daquela fábrica, cerca de 10% eram brasileiros natos, filhos e netos de imigrantes japoneses, que retornaram à pátria-mãe para tentar uma vida melhor. Ao final da visita os funcionários nos esperavam novamente do lado de fora do prédio em fila dupla, dos ambos os lados da rua, chacoalhando suas bandeirinhas em meio a muitos sorrisos.

As perspectivas da alta tecnologia e os incríveis números de vendas, os detalhes sobre os novos modelos de câmeras e as projeções do mercado de cartões de memória ficaram anotados no meu bloquinho de papel. Provavelmente vou usar essas informações para escrever um artigo, e depois apagar tudo da minha cabeça. Mas os sorrisos ingênuos daqueles operários chacoalhando suas bandeirinhas vão ficar marcados em mim para sempre. Junto com as lembranças das visitas que eu fazia à fábrica onde meu falecido pai trabalhava na minha infância.

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escreveu:

21:27:21
"A amabilidade e o respeito com que as pessoas tratam umas às outras por aqui é absolutamente desconcertante para os padrões ocidentais"

Amabilidade e respeito em muitos paises orientais e apenas aparencia. Nao eh o q a pessoa realmente pensa. Na maioria das vezes eh so aparencia, ou falsidade pura. As pessoas sao treinadas a se comportarem dessa maneira. Aeromocas, recepcionistas, etc. tem aulas de como sorrir, aonde ficam em frente de um espelho por horas e horas, treinando como sorrir e a se curvar, com um instrutor observando, orientando e dando notas. Eh mais facil v conseguir algo de alguem q pensa q v gosta dele(a) do q de alguem q te trata mal. No oriente , uma pessoa pode te odiar, mais ainda assim vai sorrir na sua frente. Pode te apunhalar pelas costas mas dai, eh outra estoria. Vencer eh muito importante no oriente. No Brasil as pessoas chutam o pau da barraca por coisinhas e acabam quase sempre indo a lugar algum, exceto pro fundo do buraco.

09.10.2006 - 00h:00

escreveu:

11:37:01
Prezado Sr. Peço desculpas pelo comentário, mas me surpreendo (ainda) com a ingenuidade do repórter ao se encantar com rostos sorridentes. O comentário do leitor anterior esta ótimo, quando deixa claro, bem claro, o nível de planejamento. Por favor, não se sinta ofendido com o comentário, pois afinal essa ingenuidade tem origem na crença que temos na bondade das pessoas. O que infelizmente nem sempre ocorre. Temos assim de ser mais atento ao mundo e não nos deixarmos enganar por truques simples como estes. Isso porque outros truques muitos mais sutis e graves estão em curso ? pare, olhe em volta e pense e voce verá muito mais... Muito mesmo.

10.10.2006 - 00h:00

escreveu:

23:00:19
Acabo de voltar do Japão. Estive por 10 dias e notei que as pessoas na rua não dão a menor importância para um ocidental. Seja ele feio, bonito, gordo ou magro. Já na empresa que visitei, o mesmo corredor polonês na entrada, não tinham bandeiras, mas acenavam freneticamente. Que simpatia. Tudo parecia uma maravilha, para padrões brasileiros e latinoamericanos. Fui falar com um brasileiro que lá trabalha há 2 anos: nunca fui na casa de ninguém, nunca consegui que um colega me visitasse. Sorrisos e abraços, só na entrada das fábricas, mesmo assim, para estrangeiros.
Eles não são melhores, nem piores. São japoneses e quase todo brasileiro pensa que todos japoneses são esforçados, todos são obedientes à lei, estudam muito, etc. Outra ingenuidade verde-amarela.

10.10.2006 - 00h:00

escreveu:

11:12:23
"Diferentemente do que estou acostumado a ver entre executivos brasileiros, ninguém ficou tentando parecer mais sabido do que a sua platéia. Pelo contrário, às vezes eles eram até tocantes de tão simples. "


Eh pessoal... o Ricardo eh ainda meio bobinho... Ele confunde as coisas. No Brasil os executivos tentam mostrar q sao os melhores e sao arrogantes por causa da nossa cultura cultura de senhores de engenho ..V sabe com quem esta falando? Eu sou o cornel das tantas.... Por outro lado, no oriente, eles seguem Confucio, v tem sempre de parecer simples, humilde, a grande vitima. Assim v abre portas, evita competicao, faz as pessoas lutarem ao seu favor. Despertar o odio e a rivalidade eh a pior coisa q v pode fazer. Odio e rivalidade geram forcas.... Fazem voce lutar por coisas q normalmente consideraria impossiveis de alcancar... Eh por isso q orientais sempre sorriem... eh pra te dominar, te conquistar, conseguirem o q desejam....
O Ricardo ainda eh bobinho....ainda nao sabe discernir entre realidade e o q significa iludir uma pessoa pra conseguir o q se deseja....

11.10.2006 - 00h:00

escreveu:

01:56:25
"Por outro lado, no oriente, eles seguem Confucio, v tem sempre de parecer simples, humilde, a grande vitima. Assim v abre portas, evita competicao, faz as pessoas lutarem ao seu favor. Despertar o odio e a rivalidade eh a pior coisa q v pode fazer. Odio e rivalidade geram forcas.... Fazem voce lutar por coisas q normalmente consideraria impossiveis de alcancar... Eh por isso q orientais sempre sorriem... eh pra te dominar, te conquistar, conseguirem o q desejam..."

E lá vem o bonde da generalização...Ai Deus.

12.10.2006 - 00h:00

escreveu:

11:19:39
Konitchiwá = Boa tarde.
Ohaiô = Bom dia.

É a única correção que me atrevo a fazer. O resto é uma forma de o jornalista expor as impressões que teve. Não creio que ele seja ingênuo, mas que tenha tido vontade de fazer um texto agradável de ser lido e sem muita complexidade social ou política.

De resto, só generalizações.

Obrigado.

23.10.2006 - 00h:00

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